Talvez eu nunca deixe de te querer.
Esticar um copo, um olhar, uma desculpa para conversamos um pouco mais.
Esperei demais.
E seu eu tivesse desatado as mordaças da vontade?
Provavelmente, não teria sido diferente.
Vou voar, mas, de alguma forma, vou ter seu olhar e seu abraço como alicerces em ruínas.
Vozes em consonância a ecoar.
Podia sentir a brisa tocar a pele, atravessar os poros e prometer tranquilidade aos sentidos.
Talvez nunca tivesse se deixado envolver tanto pelas brumas.
Esperava que os pés decidissem por si para onde ir, ou que ao menos se movessem.
Cobria o corpo inteiro com o cobertor, que pesava.
Fechava os olhos e torcia para que tudo lá fora desaparecesse.
As luzes de natal, irritantes, nunca fizeram sentido. Agora, menos ainda.
Ofuscavam o quanto de ruim tinha no mundo, a maioria sem dar a mínima.
Gente torpe correndo de um lado pro outro, lotando sacolas, disputando quinquilharias.
Escolhendo o branco do réveillon, como se roupas pudessem suavizar manchas horrendas no caráter.
Sorrisos, abraços, ressentimentos encobertos.
É, a pior época do ano se aproximava.
Teria de se encher de esperanças levianas de novo.
Tempo de se servir de hipocrisia, festejar indiferença à maldade.
"Pra dilatarmos a alma, Temos que nos desfazer Pra nos tornarmos imortais A gente tem que aprender a morrer Com tudo aquilo que fomos E tudo aquilo que somos nós"
O medo, sempre ele!
Se eu caminho pra enfrentar mazelas, das mais diversas e contextos que venham, é a isso que me propus.
Tenho segundos de sorrisos para compensar minha labuta.
Se encantar, e se encantoar.
A força que sinto aqui, me leva em frente, nunca retroage.
No peso da decisão.
Sigo, sinto, sempre.
É. Esse sorriso que encanta é um pedido de ajuda. Ajuda pra que faça comigo desse mundo maluco, algo mais bonito. Para que faça da exceção a regra. Do medo, o absoluto.
Da madrugada, a poesia. Da retraída, a moleca.
E para buscar dentro, no profundo, todo medo que há de ter.
Toda essência buscada, almejada, e, ao mesmo tempo, evitada. Pois eu já aprendi
que a liberdade não tem volta. Tem começo, mas, [que bom!] não tem fim. E aí, nessa quimera desvairada, não haveria mais canto,
escombro, escada. Desfarinharia as caixinhas, não seria mais matéria, nem gozo,
nem tempo, nem porquê. Voaria sem alto, sem destino, sem parecer. Aí então controle
nenhum eu teria. Que medo! O que, quem,
então eu seria? Desassossego. Mergulha
fundo, submerge calvo, e descalço. É
certeza, é profundo. É meu mal e meu mundo. É querer construir sem ter o partir de onde. É
saber os muros, sem saber a fonte. Não sou promessa, nem consolo, nem nunca fui. É saber-se
nada e querer tudo. É perder-se na madrugada, e querer ter lugar certo no
mundo. É retrair dúvidas, e regurgitar entranhas.
É saber-se alma, e sentir-se estranha. Bactéria. Incômodo. Asilo. Esperança.
Aniquilo. Espero. Admiro. É paraíso em mente, é planar no fundo. É subtrair o recente,
e riscar todo e qualquer futuro. É descobrir, é andar, é olhar, é sorrir. É não mais querer levantar, mas saber que,
enquanto e ainda, há muito mais lambreca por vir. Pulo, pausa, retrocesso.
Quanto mais a concha aperta, mais força há de se criar para sair. Dissipa as nuvens, vê as cores, solta os risos, respira a calma. Emerge. Se energe. Renasce. Recria. Cria.
Volta, me sopra a alegria, sem novidades.
Mais do mesmo. Nos tocamos aos poucos. Sucumbimos à embriaguez, à saudade.
Quão sacana você tem que ser para que eu peça que vá embora?
Se demora, disfarça, vai ficando, se ajeita no lugar que fiz teu.
Sem mais palavras, pedidos, desculpas.
Sabe que eu quero que fique, mas que não vou pedir pra ficar.
Me prometi despedidas de abraços longos, sem último beijo implorado.
Amanhã posso virar a esquina e esquecer que te esperava.
Dormimos a última noite abraçados, como amigos, os sonhos tratam de juntar os corpos que se tocam com uma sofreguidão quase tímida.
Ah, outro dia maldito que chega, nos desnorteia. Joga a realidade e a ressaca na cara, cobra a consciência.
Vai, fica. Vamos acender o baseado, preparar a cerveja, o rango, o filme e curtir a tranquilidade de estarmos juntos.
Noite que abafa a correria do dia, condensa emoções em palavras.
Ah, vontade de estar em outros lugares, vidas, instantes.
Desejo incontrolável de fugir da mesmice sem sentido, fugir de si.
Tirar essa cara sem graça e vestir gargalhadas.
Ser criança. Horas acariciando águas, decifrar mundos tão simples.
Vencer os próprios desafios, andar na calçada sem pisar nas linhas. Nada era sempre ou nunca mais.