Se dera conta que o café que encarava já estava frio. Tivera os pensamentos roubados por aquele sorriso. Aquele sorriso doce, desesperado. Quanta falta fazia. Agora, aos poucos, as linhas daquele rosto pareciam menos vivas. As conversas, com algumas linhas perdidas.
A vida continuava a atropelar, cobrar, inquerir, exigir. E cada vez menos havia tranquilidade. Menos tardes em marasmo. Menos alegria incontida.
Caminhara entre amores, aprendera, sentira. E entre vazios e lembranças, perguntava-se o que ainda buscava.
Mais um filme evadia histórias que não são vividas de verdade.
Se palavras te tocassem e percorressem como meus dedos
Saberia a vontade de você que mora aqui.
Permanece em desassossegos.
Pensa exausta no que há de vir.
Espera o próximo "olá".
Se entristece com o "tchau" titubeante.
Imagina e reconfigura as cenas a desenrolar.
Agarra o sabor de um instante.
Tenta encontrar palavras que os olhos já disseram.
Sofre segundos eternos em saudade.
Anseia oferecer o que outros não quiseram.
Se desfaz, refaz e renasce, mais lapidada vontade.
Vísceras por todo lado.
Fragilidade ensaiada.
Sua força repousa na coragem de ser tudo e qualquer coisa, ou nada.
Experiências que, ao contrário do que possa temer, te fizeram mais limpa que a maioria.
Cada vez mais consciente de si, ou pelo menos das vontades tempestivas.
Te amar dói, você sabe.
Não tomar um segundo pra pensar te torna perigosa.
Mas a sua doçura é tão evidente quanto inconstante.
Sua companhia conforta por concordar que a beleza é rara, temos sorte de a encontrar de vez e quando.
Quis te cortar de mim como a temer uma aventura que possa machucar.
E machucou.
Mas a dor nos transporta por entre o medo e revela coisas que importam, que não se perdem, que fazem acreditar que o amor existe.
Permanecem.
Permaneça!
Eu te amo como à parte menos planejada de mim.
Pois foi esse lado revelado que me atou a você de uma forma irreversível.
Eu continuo a lamentar a distância, mas feliz pelo seu reequilíbrio.
Talvez eu nunca deixe de te querer.
Esticar um copo, um olhar, uma desculpa para conversamos um pouco mais.
Esperei demais.
E seu eu tivesse desatado as mordaças da vontade?
Provavelmente, não teria sido diferente.
Vou voar, mas, de alguma forma, vou ter seu olhar e seu abraço como alicerces em ruínas.
Vozes em consonância a ecoar.
Podia sentir a brisa tocar a pele, atravessar os poros e prometer tranquilidade aos sentidos.
Talvez nunca tivesse se deixado envolver tanto pelas brumas.
Esperava que os pés decidissem por si para onde ir, ou que ao menos se movessem.
Cobria o corpo inteiro com o cobertor, que pesava.
Fechava os olhos e torcia para que tudo lá fora desaparecesse.
As luzes de natal, irritantes, nunca fizeram sentido. Agora, menos ainda.
Ofuscavam o quanto de ruim tinha no mundo, a maioria sem dar a mínima.
Gente torpe correndo de um lado pro outro, lotando sacolas, disputando quinquilharias.
Escolhendo o branco do réveillon, como se roupas pudessem suavizar manchas horrendas no caráter.
Sorrisos, abraços, ressentimentos encobertos.
É, a pior época do ano se aproximava.
Teria de se encher de esperanças levianas de novo.
Tempo de se servir de hipocrisia, festejar indiferença à maldade.
"Pra dilatarmos a alma, Temos que nos desfazer Pra nos tornarmos imortais A gente tem que aprender a morrer Com tudo aquilo que fomos E tudo aquilo que somos nós"